Quem vende no Simples Nacional marketplace afora costuma descobrir tarde demais que o imposto não é aquele "4%" que ouviu falar por aí. Você fecha uma venda de R$ 120, vê o repasse cair na conta e acha que o imposto já foi descontado ali. Não foi. No mês seguinte chega o DAS, e o número não bate com a conta que você fez de cabeça.

Esse artigo é para o lojista que vende em Mercado Livre, Shopee, Amazon, Magalu, Shein ou loja própria e quer entender, de forma prática, quanto de imposto some de cada venda. Sem decoreba de legislação: o que interessa é a fórmula que define o seu percentual, o que entra na base de cálculo (spoiler: mais coisa do que você imagina) e como jogar isso dentro do preço antes de anunciar.

No fim, você vai conseguir responder com precisão à pergunta que todo seller faz: quanto pago de imposto por venda online?

Como o Simples Nacional funciona para quem vende em marketplace

O Simples Nacional é um regime que junta oito tributos (IRPJ, CSLL, PIS, Cofins, IPI, ICMS, ISS e CPP) em uma guia única mensal, o DAS. Para o lojista, a vantagem é operacional: uma guia, um vencimento, menos obrigações acessórias.

A armadilha é conceitual. Como o percentual sai de uma tabela, muita gente trata o imposto como um número fixo — e ele não é. Ele muda conforme o seu faturamento cresce.

O que entra na receita bruta (e o que não entra)

Esse é o ponto que mais gera prejuízo silencioso no Simples Nacional marketplace.

A base de cálculo do DAS é a receita bruta da venda: o valor total que o comprador pagou pelo produto. Não é o repasse líquido que o marketplace deposita na sua conta.

Ou seja:

  • Comissão do marketplace não reduz a base. Se você vendeu por R$ 120 e o Mercado Livre reteve R$ 19,20 de comissão, o imposto incide sobre R$ 120.
  • Frete cobrado do comprador, destacado na nota, entra na receita bruta. Se o frete é embutido no preço (frete grátis), ele já está dentro dos R$ 120 de qualquer jeito.
  • Taxas de antecipação, tarifa fixa e publicidade não reduzem a base. São despesas suas, não redução de receita.
  • Devoluções e cancelamentos, sim, saem da base — desde que a nota seja cancelada ou haja nota de devolução. Isso depende de o seu processo fiscal estar em dia.

A conta que interessa: você paga imposto sobre o preço de venda cheio, mas recebe o líquido. Quem calcula margem em cima do repasse subestima o imposto em toda venda. Leia também: Como Calcular a Margem de Lucro Real no Mercado Livre.

RBT12: o número que define sua alíquota

RBT12 é a receita bruta acumulada dos últimos 12 meses — os 12 meses anteriores ao mês em que você está apurando, não o ano-calendário.

É o RBT12 que define em qual faixa da tabela você cai. Se você faturou forte em novembro e dezembro, esse pico continua puxando sua alíquota para cima durante os 12 meses seguintes. É por isso que muito seller sente o imposto "subir sozinho" em março, sem ter vendido mais em março.

Empresa nova, sem 12 meses de histórico, usa a média mensal proporcional dos meses já existentes, multiplicada por 12.

Anexo I: a tabela do comércio

Revenda de mercadoria — o caso da esmagadora maioria dos sellers — se enquadra no anexo Simples Nacional comércio, o Anexo I. Se você fabrica o que vende, é Anexo II (indústria), com percentuais um pouco maiores.

O Anexo I tem seis faixas:

Faixa Receita bruta em 12 meses Alíquota nominal Parcela a deduzir 1ª Até R$ 180.000,00 4,00% — 2ª De R$ 180.000,01 a R$ 360.000,00 7,30% R$ 5.940,00 3ª De R$ 360.000,01 a R$ 720.000,00 9,50% R$ 13.860,00 4ª De R$ 720.000,01 a R$ 1.800.000,00 10,70% R$ 22.500,00 5ª De R$ 1.800.000,01 a R$ 3.600.000,00 14,30% R$ 87.300,00 6ª De R$ 3.600.000,01 a R$ 4.800.000,00 19,00% R$ 378.000,00

Por que a alíquota da tabela não é o que você paga

A coluna "alíquota nominal" assusta, mas ela nunca é aplicada direto. O que vale é a alíquota efetiva Simples, calculada assim:

Alíquota efetiva = (RBT12 × alíquota nominal − parcela a deduzir) ÷ RBT12

A parcela a deduzir existe justamente para suavizar a passagem de uma faixa para outra. Sem ela, faturar R$ 1 a mais faria seu imposto pular de 4% para 7,3% de um dia para o outro.

Na prática, o efeito é este: a alíquota efetiva cresce de forma contínua e sempre fica abaixo da nominal da faixa. Um lojista com R$ 500 mil de RBT12 está na faixa de 9,50% nominal, mas paga bem menos que isso.

Quanto de imposto some por venda, na prática

Vamos aos números. Três lojistas, todos Anexo I, todos vendendo o mesmo produto por R$ 120,00.

Lojista A — RBT12 de R$ 150.000 (1ª faixa)

Na primeira faixa não há dedução: a alíquota efetiva é a própria nominal, 4,00%.

  • Imposto na venda de R$ 120: R$ 4,80

Lojista B — RBT12 de R$ 240.000 (2ª faixa)

(240.000 × 7,30% − 5.940) ÷ 240.000 (17.520 − 5.940) ÷ 240.000 = 4,825%
  • Alíquota efetiva: 4,83%
  • Imposto na venda de R$ 120: R$ 5,79

Lojista C — RBT12 de R$ 400.000 (3ª faixa)

(400.000 × 9,50% − 13.860) ÷ 400.000 (38.000 − 13.860) ÷ 400.000 = 6,035%
  • Alíquota efetiva: 6,04%
  • Imposto na venda de R$ 120: R$ 7,25

Repare: o Lojista C paga 51% mais imposto por unidade que o Lojista A, vendendo exatamente o mesmo produto pelo mesmo preço. Se ele montou a precificação quando ainda estava na primeira faixa e nunca revisou, está entregando R$ 2,45 por venda que ele acha que ainda tem no bolso. Em 800 vendas no mês, são R$ 1.960 de lucro que sumiram do controle.

É isso que significa a pergunta "quanto de imposto some por venda": não some um valor fixo — some um percentual que se move junto com o seu crescimento.

Os erros que fazem o seller achar que paga menos imposto do que paga

1. Confundir repasse com faturamento

Já tratamos disso, mas vale repetir porque é o erro mais caro. O marketplace te mostra o líquido; a Receita quer o bruto. Sua planilha precisa registrar o preço de venda cheio, não o valor que caiu na conta.

2. Ignorar substituição tributária e monofásicos

Se você vende produtos com ICMS-ST (o imposto já foi recolhido lá atrás pelo fabricante ou importador) ou com PIS/Cofins monofásico (cosméticos, autopeças, bebidas, medicamentos, entre outros), você tem direito à segregação de receitas.

Na prática: o contador separa essas receitas no PGDAS e retira do seu percentual a parcela correspondente àquele tributo já pago. O DAS cai — em alguns casos, um ponto percentual inteiro ou mais.

Muito seller de autopeças e cosmético paga o Simples cheio há anos sem saber disso. Se é o seu caso, essa é a primeira conversa a ter com o contador nesta semana.

3. Esquecer o efeito degrau

O RBT12 é uma janela móvel. Uma Black Friday forte encarece o seu imposto até novembro do ano seguinte. Isso não é motivo para vender menos — é motivo para revisar preço em janeiro, quando a alíquota nova entra em vigor, em vez de descobrir a mudança pelo boleto.

4. Achar que Fator R vale para comércio

Não vale. O Fator R (que pode reduzir a tributação conforme a folha de pagamento) só se aplica a serviços dos Anexos III e V. Revenda de mercadoria segue no Anexo I, independentemente da folha.

E o MEI?

O MEI paga valor fixo mensal, não percentual — mas tem limite de faturamento anual (R$ 81.000, com projetos de aumento em discussão) e não emite todas as notas que alguns marketplaces exigem. Ultrapassou o limite, você migra para ME no Simples e passa a pagar percentual sobre a receita. Se você está perto do teto, planeje a migração antes de estourar: o desenquadramento retroativo cobra a diferença. Leia também: Imposto do MEI vendendo em marketplace.

Como jogar o DAS dentro do cálculo de margem

A regra prática é simples: o imposto é um custo variável, igual à comissão. Ele tem que entrar na conta de cada anúncio, não ser tratado como uma despesa mensal que aparece no fim do mês.

Margem real de uma venda:

Margem = Preço de venda − Custo do produto − Comissão do marketplace − Tarifa fixa / intermediação − Frete que você paga − Imposto (alíquota efetiva × preço de venda) − Ads / cupom / desconto concedido

No exemplo do Lojista C (alíquota efetiva 6,04%), uma venda de R$ 120 com custo de produto de R$ 45, comissão de 16% (R$ 19,20) e tarifa fixa de R$ 6,00 fica assim:

120,00 − 45,00 − 19,20 − 6,00 − 7,25 = 42,55 Margem = 35,5%

Sem contar o imposto, ele acharia que a margem é 41,5%. Uma diferença de 6 pontos — que é exatamente o tamanho da alíquota efetiva, e frequentemente é o tamanho da diferença entre lucro e prejuízo em produto de giro alto e ticket baixo.

Três hábitos que resolvem:

  1. Recalcular a alíquota efetiva todo mês, com o RBT12 atualizado. É uma fórmula só.
  2. Aplicar essa alíquota sobre o preço de venda cheio, nunca sobre o repasse.
  3. Guardar o dinheiro do DAS assim que a venda entra, e não no dia 20 do mês seguinte. Separar o imposto na hora evita o aperto de caixa clássico do seller que cresceu rápido.

Leia também: Precificação na Amazon FBA.

Uma nota sobre a reforma tributária

A reforma tributária (CBS e IBS) está em período de transição, e as regras específicas para optantes do Simples Nacional ainda estão sendo detalhadas em regulamentação. A estrutura por anexos e alíquota efetiva continua valendo enquanto isso.

O recado prático é o de sempre: os números deste artigo são referência de tabela, não substituem o seu contador. Quem apura o seu PGDAS e faz a segregação de receitas é ele. O que cabe a você é entender a lógica bem o bastante para conferir se a conta faz sentido — e para precificar com o imposto dentro.

Perguntas frequentes

Quanto pago de imposto por venda no Simples Nacional? Depende da sua receita bruta dos últimos 12 meses. No Anexo I (comércio), a alíquota efetiva vai de 4% na primeira faixa a pouco mais de 11% nas faixas altas. Um lojista com R$ 400 mil de RBT12 paga cerca de 6,04% sobre cada venda.

O imposto incide sobre o valor que o marketplace me repassa? Não. Incide sobre o valor total que o comprador pagou. Comissão, tarifa fixa e frete pago por você são despesas — não reduzem a base de cálculo do DAS.

O marketplace já desconta o imposto do meu repasse? Não desconta o DAS. Pode haver retenções específicas (como ICMS-ST em algumas operações), mas o recolhimento do Simples continua sendo sua responsabilidade, via guia mensal.

Vendo em cinco marketplaces. Cada um tem imposto diferente? Não. O DAS é apurado sobre a soma de toda a receita do CNPJ, venha de onde vier — inclusive loja própria e venda presencial. O que muda entre canais são as comissões, não a alíquota.

Como sei em qual anexo minha empresa está? Pelo CNAE da atividade. Revenda de mercadoria é Anexo I; indústria é Anexo II. O contador confirma no cadastro da empresa, e vale conferir se o CNAE registrado ainda corresponde ao que você realmente vende hoje.

Conclusão

Imposto no Simples Nacional marketplace não é um número fixo que você aprende uma vez e esquece. É um percentual que se move com o seu faturamento, incide sobre o preço cheio e precisa estar dentro do cálculo de cada anúncio — não em uma planilha à parte revisada uma vez por ano.

A boa notícia: uma vez que a alíquota efetiva está no lugar certo da conta, você para de descobrir a margem depois do fato. Passa a saber, antes de publicar o anúncio, se aquele preço fecha.

É exatamente isso que a PuraMargem faz: puxa os pedidos dos seus marketplaces, junta comissão, tarifa, frete e imposto na mesma conta e mostra a margem real de cada produto — inclusive quando sua faixa do Simples muda. Se hoje você calcula isso na mão, conheça a PuraMargem e veja quanto tempo (e quanta margem) dá para recuperar.